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Como a guerra entre a Rússia e a Ucrânia pode atrapalhar as importações no Brasil?

João Victor da Silva

Formado em Relações Internacionais e Economia pela Boston University e mestrando em Relações Internacionais na University of Chicago.

Em um mundo globalizado, onde as principais economias dependem uma da outra para atender as demandas de seus cidadãos e empresas, quaisquer crises podem levar a uma disrupção na cadeia logística e de produção global, além de gerar grande volatilidade em índices macroeconômicos como o câmbio, os juros e a inflação. Assim sendo, quando muitos se perguntam presunçosamente: como uma guerra a milhares de quilômetros de distância pode interferir na minha vida pessoal ou da minha empresa? Respondo: interfere, e muito. 

No âmbito do comércio internacional, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia pode interferir nas importações brasileiras essencialmente de três maneiras. Em primeiro lugar, a Rússia é uma das principais produtoras de gás natural e petróleo do mundo. Logo, as sanções impostas pelas potências ocidentais ao país eurasiático reduzem a oferta de gás e petróleo russo no mercado internacional. Consequentemente, há um aumento no preço da energia. Um dos setores que será mais impactado por esse aumento é o de transportes. Portanto, pode-se esperar custos ainda maiores para fretes terrestres, marítimos e aéreos. Especificamente, para os fretes marítimos, que transportam 90% da carga do comércio internacional, os combustíveis representam entre 15% e 30% dos custos das empresas marítimas. Estima-se que os custos com frete marítimo possam subir 15% caso o preço do barril de petróleo se mantenha acima de US$ 100.

O agronegócio brasileiro é um dos setores mais ameaçados pelo conflito na Ucrânia. Afinal de contas, 85% dos fertilizantes necessários para produção agrícola do país são importados. Atualmente, 28% dos fertilizantes utilizados no Brasil vem da Rússia e da Bielorrússia — dois países que são alvos de sanções. É verdade que ambos os países não restringiram importações de fertilizações para o Brasil. Contudo, a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, explica que o mercado dos fertilizantes desses dois países está inviabilizado, pois as sanções dificultam o pagamento aos fornecedores. Além disso, os navios que transportam cargas desses dois países não estão sendo segurados. Nesse sentido, o agronegócio brasileiro precisará buscar novos fornecedores de fertilizantes e, com certeza, terá que arcar com preços mais altos para esses insumos fundamentais para produção agrícola. 

Por fim, as tensões na geopolítica internacional também pressionam o câmbio, os juros e a inflação brasileira. Do ponto de vista cambial, a guerra na Ucrânia tem efeitos ambíguos para a cotação do real. Por um lado, o aumento do preço das commodities favorece a pauta de exportações brasileiras, o que deveria levar a uma apreciação da moeda brasileira. Por outro lado, o aumento da percepção de risco no mundo faz com que os investidores busquem ativos mais seguros, geralmente denominados em dólar, e adiam decisões de investimento em países emergentes como o Brasil. Portanto, a entrada de dólares torna-se menos intensa. Não é por acaso, que a tendência de apreciação do real frente ao dólar se arrefeceu com o início do conflito na Ucrânia. Infelizmente, o dólar alto e o aumento do preço das commodities pressionam as taxas de inflação no país. Consequentemente, o Banco Central precisa manter sua política de alta de juros para conter o aumento de preços. No entanto, o efeito colateral dessa medida é a redução da atividade econômica do país, assim reduzindo as perspectivas de crescimento brasileiras. 

Diante de um cenário de alta volatilidade, como estamos enfrentando hoje, é importante que os importadores aprimorem ainda mais seu planejamento. Realizar encomendas com antecedência e a realização de contratos futuros de câmbio podem minimizar os riscos de custos e acesso a produtos importados que muitas empresas estão enfrentando hoje. Um planejamento adequado de importações é fundamental para superar os momentos de crise e salvaguardar as operações empresariais.