O que os números de 2025 dizem e como se preparar para 2026
O comércio exterior em 2025 foi marcado por um ambiente híbrido: normalização de fretes em algumas rotas ao mesmo tempo em que persistiram gargalos pontuais; preços de commodities menos voláteis, porém ainda determinantes para fluxos; e maior escrutínio regulatório e de conformidade (técnica, aduaneira e ESG) nas principais praças.
Para o Brasil, o resultado foi um ano de superávit robusto, sustentado por agro, mineração e óleo & gás, com sinais de recuperação gradual nos manufaturados. Esse pano de fundo não é apenas um retrato do que passou: ele orienta decisões para 2026 sobre portfólio, mercados-alvo, logística, câmbio e governança de riscos.
Em outras palavras, 2026 exigirá mais disciplina de execução. Quem alinhar planejamento comercial, compliance e operação com base em dados concretos tende a capturar preço, reduzir custos de transação e aumentar a previsibilidade de entrega. A seguir, organizamos os principais números e, sobretudo, o que eles significam na prática.
Panorama 2025: números-chave e leitura estratégica
- Exportações: US$ 339,43 bilhões
- Importações: US$ 276,34 bilhões
- Corrente de comércio: US$ 615,77 bilhões
- Saldo comercial: superávit de US$ 63,08 bilhões
Esse superávit indica que o Brasil manteve competitividade nas cadeias em que é estruturalmente forte, em especial commodities agrícolas e minerais, enquanto ampliou a participação de petróleo bruto nas vendas externas. Já nas compras, observa-se a continuidade da demanda por insumos industriais e bens de capital, compatível com ciclos de investimento setoriais. Para 2026, a leitura prática é dupla: há espaço para capturar prêmios de preço em correntes de valor onde o Brasil é price-maker, e há necessidade de fincar estratégias de diferenciação (qualidade, serviço, engenharia de produto) onde somos price-taker.
Setores em destaque: onde ganhar velocidade e margens
Agro (soja, carnes, açúcar, celulose) segue ancorado por demanda firme na Ásia. O foco aqui é execução: contratos com indexadores bem definidos, calendário de embarques compatível com janelas portuárias e padronização documental por destino, além de certificações e rastreabilidade para atender exigências sanitárias e ambientais.
Mineração (minério de ferro) mantém volumes relevantes para a China. Embora o preço seja um driver global, a previsibilidade logística e a gestão de estoques próximos aos portos ajudam a suavizar picos de congestão e custos acessórios. Em cenários de oscilação de demanda, contratos flexíveis com transportadores podem preservar capacidade.
Óleo & gás (petróleo bruto) ganhou peso no mix exportador. A atenção recai sobre agendamento de janelas de atracação, compatibilidade de especificações, seguros e cláusulas marítimas, além de gestão cambial alinhada à volatilidade internacional.
Manufaturados (máquinas, autopeças, químicos) mostram recuperação gradual. Aqui pesam diferenciação técnica, pós-venda e adequação regulatória (técnica e ambiental). Oportunidades de maior margem estão em nichos de alto valor agregado e em contratos de fornecimento sustentados por SLAs claros.
Mercados-alvo para 2026: como priorizar e adaptar o posicionamento.
China e Sudeste Asiático oferecem volume e previsibilidade de compra, desde que haja consistência de qualidade, cronograma de fornecimento e logística alinhada a picos sazonais (ex.: Ano Novo Lunar). Para capturar prêmios, alinhe especificações locais, requisitos fitossanitários e políticas de seguros e crédito.
Estados Unidos tendem a remunerar melhor nichos de alto valor agregado. Ganham vantagem produtos com engenharia, certificações, lead time e serviço técnico. Investir em homologações e compliance técnico antecipado abre portas e encurta ciclos de venda.
União Europeia (Holanda, Espanha, Alemanha), com requisitos técnicos e ESG mais rigorosos, exige diligência documental, rastreabilidade e, em muitos casos, selos e certificações adicionais. A transparência de cadeia e a prova de conformidade viram diferencial competitivo.
América do Sul (com destaque para Argentina e Chile) combina proximidade logística e ciclos de pedido mais curtos. A competitividade vem de prazo, flexibilidade de volume e custo total de atendimento; revisar modais, estoques avançados e acordos de serviço com operadores pode destravar crescimento.
Logística: previsibilidade como vantagem competitiva
A capacidade portuária e os gargalos de pico pedem planejamento de janelas e reservas com antecedência, sobretudo em rotas com histórico de blank sailings para Ásia e Cone Sul. Incorporar buffers de prazo nos embarques críticos e negociar cláusulas de espaço garantido com armadores reduz o risco e custos subsequentes.
Sazonalidade importa.
Ano Novo Lunar e Carnaval alteram cadências de produção, coleta e atracação. Um calendário integrado de compras, produção e booking evita compressão de prazos. Custos acessórios como demurrage e detention caem drasticamente quando há padronização documental, inspeção de embalagem (packing) e alinhamento fino de cut-offs.
Visibilidade end-to-end é a base da gestão de risco. Checkpoints claros por marco (fábrica, porto de origem, transbordo, atracação, desembaraço, entrega) e relatórios diários de exceções permitem agir antes do problema estourar no destino. Integrações simples entre ERPs e plataformas de tracking ampliam a velocidade de reação.
Câmbio e precificação: proteção de margem no mundo real
A dinâmica USD/BRL e EUR/BRL exige políticas de preço com cláusulas de ajuste e revisões periódicas. Mais que “travar o câmbio”, trata-se de casar fluxos, usar instrumentos como NDF/termo para o gap remanescente e alinhar Incoterms e prazos de pagamento ao apetite de risco de cada operação.
Em contratos de longo prazo, gatilhos de reajuste vinculados a bandas cambiais ou a índices conhecidos reduzem assimetrias. Simulações de cenários ajudam a decidir quando proteger e quando manter flexibilidade. Em algumas cadeias, diversificar moedas de faturamento faz sentido; em outras, a clareza contratual e o hedge operacional são mais eficientes.
Compliance e ambiente regulatório: reduzir atrito, acelerar fluxo
A correta classificação fiscal, o mapeamento de anuentes e o cumprimento de requisitos técnicos evitam retrabalhos, multas e atrasos. Em cadeias com certificações específicas (ex.: brinquedos/Inmetro), a preparação de dossiês e auditorias antes de sazonalidades salva semanas. Catálogos de produtos bem mantidos, documentação padronizada por destino e atenção a novidades normativas (janela única, processos digitais, novos códigos e campos informativos) diminuem incerteza e comprime prazos de desembaraço.
Como potencializar resultados a partir desses dados
Os números de 2025 não são apenas estatística: são material de trabalho para 2026. O primeiro passo é transformar esse retrato em um plano integrado. Isso começa pela revisão do portfólio por NCM e destino, onde há elasticidade de demanda, melhores prêmios de preço e barreiras técnicas contornáveis e segue pela priorização de mercados com maior aderência ao posicionamento da empresa.
Em paralelo, a orquestração logística vira uma alavanca concreta de margem: janelas reservadas, buffers de prazo, inspeções de embalagem, SLAs com transportadores e visibilidade ponta a ponta diminuem a variabilidade operacional e os custos acessórios. Na dimensão financeira, políticas de preço dinâmicas com gatilhos de ajuste, uso criterioso de hedge e a escolha consciente de Incoterms e prazos de pagamento protegem o resultado sem engessar a operação.
Por fim, a governança de compliance e dados é o fio condutor. Processos padronizados, catálogos atualizados, integrações com sistemas e um painel executivo com indicadores de operação e rentabilidade permitem decidir rápido, corrigir rumo e capturar oportunidades. Equipes treinadas e rotinas de monitoramento regulatório garantem que a estratégia chegue viva ao chão de fábrica, ao porto e ao cliente.
Conclusão
Entrar em 2026 bem preparado significa alinhar estratégia comercial, execução logística, disciplina financeira e conformidade regulatória sob um mesmo plano. Com base nos resultados de 2025, as empresas que priorizarem mercados com melhor prêmio, investirem em previsibilidade operacional e estruturarem proteção de margem tendem a sair à frente. Dados são o ponto de partida; a consistência na execução é o que transforma perspectiva em resultado.